Dr. Getúlio Amaral Filho

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Gestão Clínicaabril de 2026 · 6 min

Lp(a): o exame que o cardiologista do seu pai não pediu

Uma em cada cinco pessoas tem lipoproteína(a) elevada. É geneticamente determinada, dobra ou triplica o risco de infarto e estenose aórtica, custa cerca de R$ 80 a 150 — e quase nunca aparece no checkup. Medir uma vez na vida muda décadas de conduta.

Lp(a): o exame que o cardiologista do seu pai não pediu

Eduardo tem 39 anos, advogado, magro, faz triathlon nos fins de semana. Fez checkup completo na empresa há dois meses. Colesterol total 192 mg/dL, LDL 118 mg/dL, HDL 54 mg/dL, triglicérides 88 mg/dL. Tudo normal, doutor. Pra que voltei aqui? Voltou porque o pai infartou aos 55, o tio paterno aos 49, o avô paterno aos 53. Disseram que era hereditário, mas que comigo era diferente porque eu treino.

Pedi um exame de Lp(a). Resultado: 187 nmol/L (referência: <75 nmol/L). Para colocar em escala: ele está acima do percentil 90 da população. Pedi escore de cálcio coronariano. Score 38 — placa subclínica já presente, em alguém de 39 anos magro e atleta.

Eduardo é o caso comum. Não é falta de informação. É um exame que sai do checkup pelo motivo errado: ninguém pediu.

A história em uma frase

A lipoproteína(a), abreviada Lp(a), é uma partícula parecida com o LDL — colesterol "ruim" — mas com uma proteína extra ligada, chamada apolipoproteína(a). Ela foi descrita em 1963. Levou mais cinquenta anos para entrar com força na conversa cardiológica de rotina, embora todo o tempo a literatura genética e epidemiológica viesse acumulando: quem tem Lp(a) elevada tem risco aterosclerótico significativamente maior, independente de LDL, pressão, glicose, ou estilo de vida.

A consenso da Sociedade Europeia de Aterosclerose, publicado por Florian Kronenberg e colegas no European Heart Journal em 2022, é o documento de referência atual. Recomendação central: medir Lp(a) ao menos uma vez na vida em todo adulto.

Por que uma vez na vida? Porque o nível é geneticamente determinado, codificado pelo gene LPA, e permanece praticamente constante ao longo da vida adulta. Estilo de vida, dieta, estatina — não mudam significativamente o valor. É um cartão de visita biológico que você herdou.

Distribuição populacional da Lp(a) em quatro zonas de risco. A maioria das pessoas se concentra abaixo de 75 nmol/L (risco baixo), mas a longa cauda à direita carrega ~20% da população em risco alto (>125 nmol/L) ou muito alto (>200). Lp(a) é hereditária, mede uma vez na vida e não responde à dieta nem à estatina — o que muda é o alvo de ApoB, o screening familiar e o momento de iniciar prevenção.
Distribuição populacional da Lp(a) em quatro zonas de risco. A maioria das pessoas se concentra abaixo de 75 nmol/L (risco baixo), mas a longa cauda à direita carrega ~20% da população em risco alto (>125 nmol/L) ou muito alto (>200). Lp(a) é hereditária, mede uma vez na vida e não responde à dieta nem à estatina — o que muda é o alvo de ApoB, o screening familiar e o momento de iniciar prevenção.

O tamanho do problema

A revisão de Sotirios Tsimikas no Journal of the American College of Cardiology em 2017 sintetizou bem a magnitude. Aproximadamente 20 a 25% da população geral tem Lp(a) acima do limite considerado de risco (>50 mg/dL ou >125 nmol/L). Em afrodescendentes, essa proporção sobe para 30-40%.

E o impacto é real. O estudo de Robert Clarke e colegas no NEJM em 2009 mostrou, em análise genética de mais de 26 mil pessoas, que portadores de variantes do gene LPA associadas a Lp(a) elevada tinham risco de doença coronariana aumentado em torno de 1,5 vezes. Pessoas no quintil superior de Lp(a) chegam a ter risco 2 a 3 vezes maior de infarto, AVC isquêmico e estenose aórtica calcificada — em alguns recortes, equivalente a fumar.

A análise de randomização mendeliana de Stephen Burgess e colegas, publicada no JAMA Cardiology em 2018, foi um dos trabalhos que estabeleceu a relação como causal, e não apenas associativa. Variantes genéticas que naturalmente baixam Lp(a) baixam o risco cardiovascular na proporção esperada — assinatura clássica de causalidade.

Por que não aparece no checkup

Três motivos práticos.

Primeiro: o protocolo de checkup brasileiro tradicional foi desenhado em torno do colesterol total, LDL, HDL, triglicérides — o "lipidograma" clássico. Lp(a) é um exame separado, custa adicional R$ 80 a 150, e nunca foi padronizado nas diretrizes locais com força.

Segundo: por décadas, a Lp(a) elevada foi vista como "incurável" — não havia medicamento específico para baixar. Estatinas reduzem LDL em 30-50%, mas tipicamente aumentam discretamente a Lp(a). Sem ferramenta terapêutica direta, o exame parecia diagnóstico sem tratamento. A objeção fazia algum sentido em 1990. Faz menos sentido hoje, com terapias específicas (oligonucleotídeos antissenso e siRNAs anti-Lp(a)) já em fase 3 e com a leitura clínica clara: saber a Lp(a) muda intensidade da estratégia preventiva geral.

Terceiro: rastreamento por história familiar é mal-feito. A maioria dos pacientes não traz o histórico paterno espontaneamente; a maioria dos médicos não tem tempo de extrair a árvore familiar em consulta de quinze minutos.

O que fazer com o resultado

A diretriz ESC/EAS 2019 (Mach e colegas, European Heart Journal 2020) já incorporou Lp(a) ao algoritmo de estratificação de risco cardiovascular. A leitura prática:

  • Lp(a) < 75 nmol/L (~30 mg/dL): valor desejável, sem ação específica.
  • Lp(a) 75-125 nmol/L (~30-50 mg/dL): zona intermediária, considerar como modificador de risco.
  • Lp(a) > 125 nmol/L (~50 mg/dL): risco elevado, intensificar prevenção.
  • Lp(a) > 250 nmol/L (~100 mg/dL): risco muito elevado, equivalente a hipercolesterolemia familiar em alguns casos.

Quando o valor está elevado, a conduta não é "esperar terapia específica". A conduta é derrubar todos os outros fatores de risco modificáveis com mais agressividade:

  • LDL/ApoB: alvos mais ambiciosos. Para pessoa com Lp(a) elevada e fator de risco adicional, considerar ApoB <80 mg/dL como meta (alguns expertos sugerem <60 mg/dL em risco muito alto). A discussão sobre estatina passa a acontecer mais cedo.
  • Pressão arterial: alvo <130/80 mmHg consistente.
  • Glicemia: controle rigoroso de pré-diabetes ou diabetes.
  • Tabagismo: zero.
  • Escore de cálcio coronariano: considerar para refinar risco — placa já presente muda o tom da conversa.
  • Screening familiar em cascata: filhos, irmãos, sobrinhos. Se você tem Lp(a) alta, há 50% de chance de cada filho carregar.

Quem deve medir, e quando

A recomendação europeia atual é medir uma vez em todo adulto. Na prática brasileira, o consenso pragmático que adotamos:

  • Em todo adulto com história familiar de doença cardiovascular precoce (homem <55 anos, mulher <65 anos com infarto, AVC, morte súbita).
  • Em todo adulto que se aproxima dos 40 e está fazendo seu painel cardiovascular completo pela primeira vez.
  • Em pessoa com doença aterosclerótica documentada antes do esperado — placa coronariana em escore de cálcio acima do percentil 75 para idade, evento clínico precoce.
  • Em pessoa com hipercolesterolemia familiar conhecida — frequentemente coexiste.
  • Em estenose aórtica calcificada idiopática.
  • Em familiares de primeiro grau de quem já mediu Lp(a) elevada.

Coleta é simples: sangue em jejum não é estritamente necessário. O ensaio ideal é isoforma-independente, reportado em nmol/L (não em mg/dL — a conversão entre as unidades não é linear, porque depende do tamanho da partícula). Pedir para o laboratório que reporte em nmol/L se houver opção.

A leitura que o Continuum faz

No painel inicial do Continuum Plenya, Lp(a) entra junto com ApoB, hs-CRP, insulina de jejum, HbA1c, vitamina D, ferritina, B12 e homocisteína. Não como "exame extra" — como informação estrutural sobre o risco cardiovascular do paciente para os próximos quarenta anos. Eduardo, do começo, hoje está em estatina de potência alta com alvo ApoB <70, com escore de cálcio sendo monitorado a cada três anos, com os irmãos rastreados (um deles também com Lp(a) elevada, levado à investigação preventiva), e com ele próprio em plano de treino estruturado e dieta mediterrânea sustentada. Doutor, ninguém tinha me dito isso. Eu acreditava que estava blindado pelo treino.

O treino não blinda. A genética entrega a carta. Saber qual carta veio é a diferença entre treinar no escuro e treinar com mapa.

Referências

  1. Kronenberg F et al. "Lipoprotein(a) in atherosclerotic cardiovascular disease and aortic stenosis: a European Atherosclerosis Society consensus statement." Eur Heart J, 2022;43(39):3925-3946.
  2. Tsimikas S. "A Test in Context: Lipoprotein(a): Diagnosis, Prognosis, Controversies, and Emerging Therapies." J Am Coll Cardiol, 2017;69(6):692-711.
  3. Clarke R et al. "Genetic variants associated with Lp(a) lipoprotein level and coronary disease." N Engl J Med, 2009;361(26):2518-2528.
  4. Burgess S et al. "Association of LPA Variants With Risk of Coronary Disease and the Implications for Lipoprotein(a)-Lowering Therapies: A Mendelian Randomization Analysis." JAMA Cardiol, 2018;3(7):619-627.
  5. Mach F et al. "2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias: lipid modification to reduce cardiovascular risk." Eur Heart J, 2020;41(1):111-188.

Revisão clínica. Conteúdo médico de autoria do Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21.876 · RQE 16.038 (Nefrologia). Publicado originalmente em plenyasaude.com.br/blog.