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Escore de cálcio coronariano: o exame de R$ 800 que muda uma década
É uma tomografia rápida, sem contraste, sem agulha, com dose de radiação parecida com a de uma mamografia. E o que ela mostra, ou deixa de mostrar, recalibra os próximos dez anos do seu coração.

Henrique tem 46 anos. Engenheiro, dois filhos, corre nos finais de semana. Pai infartou aos 58. Veio ao consultório porque a esposa insistiu — o cardiologista do meu pai disse que tava tudo bem com ele um ano antes do enfarte. Quero saber o que tá acontecendo dentro de mim.
Pressão 124 por 78. Colesterol total 198, LDL 122, HDL 48. Glicemia de jejum 92. Pelo escore de Framingham tradicional, risco "baixo a moderado" — não indicado para estatina. Pelo escore de risco da AHA de 2018, risco a 10 anos calculado em 4,8%. Liberado para seguir a vida.
Pedi um escore de cálcio coronariano. Resultado: 187. Acima do percentil 90 para idade.
A conversa que tive com Henrique naquela sala foi diferente da que ele esperava.
O que esse exame mede, exatamente
O escore de cálcio coronariano — CAC, do inglês coronary artery calcium — é uma tomografia computadorizada do coração feita sem contraste, sem agulha, em respiração controlada de poucos segundos. A dose de radiação fica em torno de 1 mSv, comparável a uma mamografia. Custa, em São Paulo, entre R$ 600 e R$ 1.000 fora de plano. Demora 15 minutos da chegada à saída.
O que o exame faz é simples: identifica e quantifica depósitos de cálcio nas paredes das três artérias coronárias principais. Cálcio nas coronárias só existe se houver placa aterosclerótica calcificada. Não é um falso positivo. É a impressão digital de uma doença que se instalou silenciosamente, ao longo de anos, mesmo enquanto seus exames de sangue diziam "normal".

O resultado vem em pontos, segundo a metodologia de Agatston. A leitura clínica é direta:
- Escore 0 — nenhum cálcio detectado. Risco de evento cardiovascular nos próximos 5 a 10 anos extremamente baixo.
- Escore 1 a 100 — placa presente, mas em volume pequeno. Risco intermediário.
- Escore 101 a 400 — doença aterosclerótica estabelecida e moderada. Risco elevado.
- Escore acima de 400 — doença extensa, frequentemente justificando manejo equivalente a um paciente que já infartou.
O dado que reorganiza a conversa
O estudo MESA (Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis), publicado por Detrano e colegas no New England Journal of Medicine em 2008, acompanhou 6.722 adultos de quatro grupos étnicos por uma média de quase 4 anos. Comparado com pessoas com escore zero, o risco ajustado de evento coronariano foi 7,73 vezes maior em quem tinha escore entre 101 e 300, e 9,67 vezes maior em quem tinha escore acima de 300. Esses valores são independentes dos fatores de risco tradicionais — colesterol, pressão, diabetes, tabagismo.
Em 2007, Budoff e colegas publicaram no Journal of the American College of Cardiology uma análise de 25.253 indivíduos assintomáticos seguidos por uma média de 6,8 anos. Os hazard ratios para mortalidade total iam de 6,7 vezes (escore 11–100) até 62,6 vezes (escore acima de 1.000), comparados com escore zero. Os autores demonstraram que adicionar o CAC aos fatores de risco tradicionais elevava o C-statistic de 0,61 para 0,81 — um salto enorme em capacidade preditiva.
Em 2015, McClelland publicou no JACC um escore de risco do MESA que incorpora o CAC junto com os fatores tradicionais. A inclusão do CAC melhorou significativamente a discriminação para eventos coronarianos a 10 anos (C-statistic 0,80 versus 0,75).
A diretriz americana de colesterol de 2018 (AHA/ACC) reconheceu formalmente o CAC como ferramenta para reclassificar risco em adultos de risco intermediário — exatamente a faixa onde a decisão de tratar ou não tratar é difícil. Em quem tem escore zero e não fuma, não é diabético e não tem história familiar precoce, a recomendação de estatina pode ser adiada ou retirada. Em quem tem escore acima de 100, ou acima do percentil 75 para idade, a recomendação muda no sentido oposto: tratar com mais agressividade.
A janela de garantia do escore zero
Há uma pergunta razoável: se deu zero, quando repetir?
A análise de Dzaye e colegas, publicada no JACC: Cardiovascular Imaging em 2021, examinou exatamente isso usando dados do MESA. O "warranty period" — o tempo médio até que o escore deixe de ser zero — varia de 3 a 7 anos dependendo de sexo, etnia e perfil de risco. Em homens com diabetes ou múltiplos fatores, o intervalo é mais curto. Em mulher jovem, sem fatores de risco, sem história familiar, pode chegar a 7 ou mais anos.
Na prática clínica, isso traduz-se em uma regra de bolso útil: escore zero sem fatores de risco = repetir em 5 a 7 anos. Escore zero com diabetes ou tabagismo = repetir em 3 anos. Escore acima de zero = não se repete o exame para "monitorar" — repete-se para confirmar progressão, mas a conduta já mudou.
Quando pedir, quando não pedir
O CAC é uma ferramenta de estratificação de risco em assintomáticos — não é um exame para investigar dor torácica (para isso, outros exames servem melhor: angiotomografia, ecocardiograma de estresse, cateterismo, conforme o caso).
A indicação atual, sintetizada das diretrizes:
- Homens entre 40 e 70 anos e mulheres entre 50 e 70 anos com risco intermediário (5–20% em 10 anos) ou com fatores que tornam a decisão difícil.
- Antes dos 40 (homens) ou 50 (mulheres) se houver história familiar de evento cardiovascular precoce: pai ou irmão antes de 55, mãe ou irmã antes de 65.
- Quando há discrepância entre o que o paciente sente e o que o exame diz — o paciente que "faz tudo certo" mas tem ApoB elevada, Lp(a) alta, ou diabetes recém-diagnosticado.
Não pedir, em geral:
- Em assintomáticos abaixo dos 35 anos sem nenhum fator (placa calcificada é rara, escore costuma ser zero).
- Em quem já teve evento ou já está em estatina por indicação clara — o resultado raramente muda a conduta.
- Como exame "anual de rotina" — não é assim que ele se usa.
O que o exame de Henrique fez
Henrique saiu daquela consulta entendendo, pela primeira vez, que o "tudo normal" do laboratório de sangue não conta a história inteira. Ele tinha placa instalada, em volume não trivial, aos 46 anos. O LDL de 122 que ninguém trataria pelo cálculo padrão passou a ser, no contexto dele, alvo de redução agressiva — meta de LDL abaixo de 70 e ApoB abaixo de 80, com estatina, dieta e treino de força recalibrados.
Doze meses depois, LDL em 58, ApoB em 65, perdeu 6 kg, dorme melhor, parou de tomar omeprazol que tomava há quatro anos por refluxo "idiopático". O escore de cálcio não regrediu — placa calcificada, em geral, não regride. Mas a velocidade de progressão muda. E o risco real de evento, nos próximos dez anos, foi recalibrado para baixo de uma forma que nenhuma fórmula tradicional teria conseguido.
Como o Continuum integra esse achado
Um escore de cálcio acima de zero, no Continuum Plenya, não é um número solto no prontuário. Ele entra no painel ao lado de ApoB, Lp(a), HbA1c, pressão de 24h, composição corporal, histórico familiar, estilo de vida — e o cardiologista, o clínico e o nutricionista combinam o plano que faz sentido para aquele corpo, naquele momento. Acompanhamento em 6 e 12 meses verifica o que mudou, não no escore (que é estrutural), mas em todos os marcadores de progressão.
Coração que infarta aos 55 começou a doer aos 35. O escore de cálcio é uma das poucas ferramentas que permitem ouvir esse aviso enquanto ainda há vinte anos para responder.
- Detrano R et al. Coronary calcium as a predictor of coronary events in four racial or ethnic groups. N Engl J Med, 2008;358(13):1336-1345.
- Budoff MJ et al. Long-term prognosis associated with coronary calcification: observations from a registry of 25,253 patients. J Am Coll Cardiol, 2007;49(18):1860-1870.
- McClelland RL et al. 10-Year Coronary Heart Disease Risk Prediction Using Coronary Artery Calcium and Traditional Risk Factors: Derivation in the MESA With Validation in the HNR Study and the DHS. J Am Coll Cardiol, 2015;66(15):1643-1653.
- Grundy SM et al. 2018 AHA/ACC/Multisociety Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation, 2019;139(25):e1082-e1143.
- Dzaye O et al. Warranty Period of a Calcium Score of Zero: Comprehensive Analysis From MESA. JACC Cardiovasc Imaging, 2021;14(5):990-1002.
Revisão clínica. Conteúdo médico de autoria do Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21.876 · RQE 16.038 (Nefrologia). Publicado originalmente em plenyasaude.com.br/blog.
Pré-diabetes não é uma fase. É uma janela de cinco anos.
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Ferritina entre 30 e 100: a normalidade que esgota mulheres
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