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12 exames que valem cada centavo — e 12 que são desperdício
Pacote de check-up de R$ 4.000 que esqueceu da ApoB e mediu três marcadores tumorais sem nenhuma indicação. Não é exceção. É a regra do mercado. Eis o que pedir e o que cortar.

Patrícia chegou com uma pasta. Dentro, o resultado do check-up que tinha pago R$ 4.200 em uma rede laboratorial conhecida. Cinquenta e duas linhas. Marcador tumoral CA 125 — sem nenhuma indicação ginecológica para pedir. CA 19-9 — idem. Anti-tireoglobulina, anti-TPO, T3 reverso — todos sem clínica. Cinco contagens de células do sangue duplicadas em formatos diferentes.
Faltava ApoB. Faltava Lp(a). Faltava insulina de jejum. Faltava saturação de transferrina junto da ferritina (essa estava lá, isolada, como prêmio de consolação).
A pasta era grossa. Mas não respondia a uma única pergunta clínica útil sobre o futuro dela.
O problema do check-up de catálogo
A maioria dos pacotes de check-up no Brasil é desenhada para parecer completo, não para ser útil. São listas montadas por marketing — quanto mais linhas no PDF final, mais o paciente sente que recebeu valor. O resultado é dois fenômenos que andam juntos: excesso de exames sem indicação (ruído, falsos positivos, biópsias desnecessárias, ansiedade) e ausência dos exames que realmente prevêem desfechos (porque ainda não estão no catálogo padrão ou porque o convênio não cobre).
Não é uma questão de "fazer mais" ou "fazer menos". É de fazer o que importa.

A lista a seguir não substitui consulta. Cada exame pode estar indicado ou contra-indicado dependendo do contexto — idade, sexo, histórico familiar, sintomas. Mas dá um eixo para a conversa que vale a pena ter.
Os 12 que valem cada centavo
1. ApoB (apolipoproteína B). Mede o número de partículas aterogênicas circulantes — todas as LDL, IDL, VLDL e Lp(a) carregam uma molécula de ApoB. A revisão de Sniderman, Navar e Thanassoulis publicada em 2022 no JAMA Cardiology sintetizou décadas de literatura mostrando que ApoB é melhor preditor de eventos cardiovasculares do que LDL-C ou colesterol não-HDL, especialmente em discordâncias (que são comuns em síndrome metabólica e diabetes). Alvo geral: <90 mg/dL para risco baixo; <80 para risco moderado-alto; <65 para prevenção secundária.
2. Lp(a) — lipoproteína (a). Hereditária, mede uma vez na vida (depois dos 18). Cerca de 20% da população tem Lp(a) acima do limite de risco. A revisão de Tsimikas no JACC em 2017 estabelece a Lp(a) como fator de risco causal e independente para doença coronariana e estenose aórtica calcificada. Alvo: <50 mg/dL (ou <125 nmol/L). Acima disso, conduta cardiovascular muda — mesmo com LDL "normal".
3. Insulina de jejum + HOMA-IR. Detecta resistência insulínica anos antes da glicemia subir. Insulina <8 µIU/mL é desejável; >12 sugere resistência; >20 já é grave. HOMA-IR <2,0 é meta clínica.
4. HbA1c. Glicação média dos últimos 90 dias. Critério ADA 2026: <5,7% normal, 5,7–6,4% pré-diabetes, ≥6,5% diabetes. Mais útil que glicemia de jejum isolada, que captura apenas um instante.
5. PCR ultrassensível (hs-CRP). Inflamação de baixo grau, fator de risco cardiovascular independente. Alvo <1,0 mg/L. Entre 1,0 e 3,0, risco intermediário; >3,0, risco alto. Sempre ler ao lado de quadros agudos descartados (infecção, lesão recente).
6. Ferritina + saturação de transferrina. Em conjunto, não isolados. Ferritina sozinha pode mascarar deficiência funcional ou estar falsamente elevada por inflamação. Para mulheres menstruantes adultas, ferritina abaixo de 50 com sintomas geralmente já requer abordagem.
7. TSH + T4 livre + T3 livre. TSH isolado deixa passar disfunções centrais e conversão alterada. Essa tríade dá leitura completa do eixo. Anti-TPO só se houver suspeita clínica concreta de tireoidite — não como rotina.
8. Vitamina D (25-OH). Deficiência amplamente prevalente no Brasil mesmo em região ensolarada. Alvo individualizado: 40–60 ng/mL para a maioria dos adultos.
9. Vitamina B12 + homocisteína. B12 isolada pode estar "normal" (>200 pg/mL) com deficiência funcional já estabelecida. Homocisteína >10 µmol/L sugere deficiência ativa de B12, B6 ou folato. Importante em vegetarianos, idosos, usuários crônicos de metformina ou inibidores de bomba de prótons.
10. Testosterona total + livre + SHBG (homens). A total isolada pode enganar — quem tem SHBG alto tem testosterona total normal mas testosterona livre baixa, com sintomas reais (fadiga, libido, perda de massa muscular). Pedido junto com LH e FSH se houver quadro de hipogonadismo.
11. Estradiol + FSH + progesterona (mulheres na perimenopausa). O FSH é o marcador mais sensível da reserva ovariana em queda. Estradiol isolado oscila demais para ser útil sozinho. Em quem ainda menstrua, colher na fase folicular (3º a 5º dia).
12. Escore de cálcio coronariano (CAC). Não é exame de sangue, mas pertence a essa lista. Tomografia sem contraste, dose de radiação baixa, R$ 600–1.000. Mede placa aterosclerótica calcificada nas coronárias. Em homens >40 e mulheres >50 com risco intermediário, ou antes se houver história familiar precoce, é o exame que mais reorganiza a conversa preventiva. Faz uma vez; repete em 5 anos se zero, conforme conduta.
Como pano de fundo desses doze, sempre o hemograma completo, a função renal (creatinina, ureia, TGO/TGP), o exame de urina e a pressão arterial bem aferida — esses são tão básicos que nem entram na contagem.

Os 12 que são, na maioria dos casos, desperdício
1. Marcadores tumorais aleatórios (CA 19-9, CA 125, CEA, CA 15-3, AFP) sem suspeita clínica concreta. Falsos positivos absurdamente comuns; especificidade ruim para rastreamento.
2. PSA antes dos 50 sem fator de risco. A diretriz USPSTF de 2018 (Grossman e colegas, JAMA) recomenda decisão individualizada entre 55 e 69 anos, e contra screening rotineiro acima de 70. Antes dos 50, só com história familiar de câncer de próstata precoce ou raça/etnia de risco aumentado. Excesso de biópsias é o resultado clássico.
3. T3 reverso de rotina. Marcador inespecífico de "stress fisiológico", quase nunca muda conduta. Nicho bem específico (síndrome do eutireoideo doente em UTI), não rotina.
4. Anti-tireoglobulina e anti-TPO sem clínica de tireoidite ou TSH alterado. Positividade isolada não dá diagnóstico nem indica tratamento.
5. Painel de alergias alimentares IgG. Sem validação científica como teste diagnóstico. Diretrizes de alergia/imunologia (AAAAI, EAACI) são explícitas em desencorajar.
6. Colesterol total isolado. Sem fracionamento (HDL, LDL, ApoB), tem valor preditivo limitado. Se vai pedir lipídios, peça o painel completo + ApoB.
7. Vitaminas isoladas em painel "antioxidante" (E, A, beta-caroteno) sem deficiência clínica suspeita. Reposição empírica desses não tem mostrado benefício e em alguns casos mostra dano.
8. CK total como rastreamento sem suspeita de miopatia. Sobe com exercício recente, sem significado clínico em assintomáticos.
9. Ureia isolada como marcador renal. Creatinina + cálculo de TFG estimada por CKD-EPI já dá a leitura útil. Ureia oscila com hidratação e dieta proteica.
10. Painel hormonal "completo" em homens jovens assintomáticos (DHEA, androstenediona, dihidrotestosterona detalhadas) sem queixa clínica. Caro e raramente muda conduta.
11. Sorologias virais em série (citomegalovírus, Epstein-Barr, herpes 6) em adultos assintomáticos para investigar fadiga. Quase todos positivos, quase nenhum aciona conduta.
12. Tomografia de corpo inteiro como rastreio sem indicação. Achados incidentais geram cascatas diagnósticas, biópsias desnecessárias, ansiedade prolongada — e quase nenhuma vida salva. Reservada para protocolos oncológicos específicos.
A regra geral
Vale lembrar a pergunta que precede pedir qualquer exame: se o resultado vier alterado, o que muda na conduta? Se a resposta é "nada" ou "vou pedir outro exame para ver melhor", esse não é o exame certo no momento certo.
E a pergunta gêmea: se o resultado vier normal, o que muda? Se é "nada — eu ainda investigaria do mesmo jeito", também não é o exame certo.
Bons exames respondem perguntas clínicas concretas. Más listas decoram pasta.
Como o Continuum trata isso
No Continuum Plenya, o painel inicial não é catálogo. É montado para o paciente — idade, sexo, histórico familiar, queixa principal, fatores de risco. Os exames anuais e semestrais entram no escore que evolui com o tempo. A decisão de pedir ApoB, Lp(a), CAC ou um painel hormonal completo nasce da leitura clínica, não de um pacote pré-fechado de R$ 4.000 que veio do balcão do laboratório.
Pedir menos exames com critério costuma custar o mesmo, ou menos, do que pedir muitos exames sem critério. E faz uma diferença enorme no que se enxerga.
A pasta da Patrícia foi reorganizada. Sobraram seis dos cinquenta e dois exames anteriores. Foram pedidos sete novos, dirigidos. O custo foi R$ 1.300. E pela primeira vez, ela teve uma conversa em que cada linha do laudo significava alguma coisa.
- Sniderman AD, Navar AM, Thanassoulis G. Apolipoprotein B vs Low-Density Lipoprotein Cholesterol and Non-High-Density Lipoprotein Cholesterol as the Primary Measure of Apolipoprotein B Lipoprotein-Related Risk: The Debate Is Over. JAMA Cardiol, 2022;7(3):257-258.
- Tsimikas S. A Test in Context: Lipoprotein(a): Diagnosis, Prognosis, Controversies, and Emerging Therapies. J Am Coll Cardiol, 2017;69(6):692-711.
- Grossman DC et al. Screening for Prostate Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA, 2018;319(18):1901-1913.
- Grundy SM et al. 2018 AHA/ACC/Multisociety Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation, 2019;139(25):e1082-e1143.
- American Diabetes Association. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care, 2026;49(Suppl 1):S27-S49.
Revisão clínica. Conteúdo médico de autoria do Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21.876 · RQE 16.038 (Nefrologia). Publicado originalmente em plenyasaude.com.br/blog.
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