DR.

GETÚLIO AMARAL

Activity · NutritionFebruary 2026 · 2 min

O fármaco que reduz mortalidade em 80% e ninguém prescreve

Aprendi a respeitar este número examinando paciente: nenhum remédio que prescrevi protege tanto quanto a aptidão cardiorrespiratória. E quase ninguém me ensinou a prescrevê-la na faculdade — fui aprendendo paciente a paciente.

O fármaco que reduz mortalidade em 80% e ninguém prescreve

Se existisse um fármaco que reduzisse o risco de morte por todas as causas em até 80%, a humanidade pagaria qualquer preço por ele.

Esse fármaco existe. Chama-se exercício físico. Posso afirmar, sem medo de exagero, que é o medicamento mais subprescrito da medicina contemporânea — e o que mais decisivamente muda o curso da longevidade de quem aceita prescrevê-lo.

O dado vem do estudo da Cleveland Clinic publicado por Mandsager e colegas no JAMA Network Open em 2018, com 122 mil adultos: baixa aptidão cardiorrespiratória mostrou hazard ratio de 5,04 contra a aptidão de elite. Para comparação, no mesmo estudo: tabagismo 1,41, diabetes 1,40, doença coronariana 1,29.

Sedentarismo mata mais que fumar. Não é provocação minha. É o número que a literatura entrega.

Comparativo de hazard ratio para mortalidade total: aptidão cardiorrespiratória baixa (HR 5,04) supera tabagismo (1,41), diabetes (1,40) e doença coronariana (1,29). Estudo da Cleveland Clinic com 122 mil adultos, Mandsager 2018, JAMA Network Open.
Comparativo de hazard ratio para mortalidade total: aptidão cardiorrespiratória baixa (HR 5,04) supera tabagismo (1,41), diabetes (1,40) e doença coronariana (1,29). Estudo da Cleveland Clinic com 122 mil adultos, Mandsager 2018, JAMA Network Open.

A aptidão cardiorrespiratória — medida pelo VO₂ máx — é, na minha leitura, o marcador prognóstico mais poderoso de toda a medicina interna. Mais que pressão arterial sistólica. Mais que o perfil lipídico. Mais que a glicemia. A American Heart Association, em 2016, já tinha publicado um scientific statement (Ross et al.) defendendo que a aptidão cardiorrespiratória deve ser tratada como sinal vital clínico — medida e registrada em prontuário como pressão e frequência cardíaca. Eu concordo, e custou anos para eu entender por quê.

A literatura epidemiológica reforça em escala. O estudo de Wen e colegas no Lancet (2011), com mais de 416 mil adultos taiwaneses, demonstrou que 15 minutos diários de atividade moderada já reduzem mortalidade total em 14% e estendem expectativa de vida em três anos. A meta-análise de Ekelund (BMJ 2019), com dados de acelerômetro de 36 mil adultos, mostrou que substituir 30 minutos de sedentarismo por atividade leve já reduz mortalidade — não precisa ser exercício de alta intensidade. Lavie e colegas (Circ Res 2019) sintetizaram a evidência: o efeito do sedentarismo é independente do tempo de exercício formal — sentar muito mata mesmo em quem treina.

E o exercício é, ao mesmo tempo, o marcador mais barato de melhorar. Não exige medicamento de alto custo, não exige tecnologia de ponta. Exige tempo, estrutura e uma escolha clínica de prescrever exercício com o mesmo rigor com que se prescreve um anti-hipertensivo: dose, frequência, intensidade, monitoramento. Aprendi, depois de muito olhar paciente por paciente, que a receita escrita à mão dizendo "praticar atividade física regular" não vale o papel em que está impressa. Exercício é remédio quando é prescrito como remédio.

Recorte do Capítulo 7 do livro ANTES — A Janela Silenciosa entre o Normal e o Ótimo.

Clinical review. Medical content authored by Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21,876 · RQE 16,038 (Nephrology).

Educational notice

This content is educational and does not constitute medical prescription. Each case is unique — for individual evaluation and care, consult a physician.