12 exames que um check-up de longevidade pede
ApoB, Lp(a), insulina de jejum, escore de cálcio. O check-up básico raramente inclui esses doze, e são os marcadores que mais predizem trajetória de saúde nos próximos vinte anos.

A Patrícia chegou ao consultório semana passada com uma pasta. Dentro, o resultado de um check-up básico que tinha feito numa rede laboratorial: hemograma, função renal, lipidograma simples, glicemia de jejum, TSH, exame de urina. Cinquenta e duas linhas no total.
Faltava ApoB. Faltava Lp(a). Faltava insulina de jejum. Faltava saturação de transferrina junto da ferritina (essa estava lá, isolada). Faltava o escore de cálcio coronariano.
A pasta era grossa. Mas, no meu jeito de ler, ficavam sem resposta as perguntas que mais importam para o futuro dela.
O check-up básico responde a uma pergunta. Eu pergunto outra.
O check-up convencional foi desenhado para uma pergunta específica e legítima: você tem alguma doença instalada hoje? Hemograma, função renal, lipidograma básico, glicemia, urina, tireoide. Esses exames seguem essenciais, e eu continuo pedindo. Eles funcionam como pano de fundo do cuidado.
A pergunta que organiza o cuidado preventivo, no consultório, é outra: para onde a saúde do paciente está indo nos próximos vinte anos? Para responder a ela, eu somo uma camada com maior poder preditivo: número de partículas aterogênicas, resistência insulínica precoce, inflamação subclínica, reserva ovariana, placa coronariana já presente em curva ascendente.
Não é uma questão de "fazer mais" ou "fazer menos". É de fazer o que importa. Eu insisto nisso desde os tempos da residência em nefrologia da Santa Casa de Londrina, onde aprendi cedo a questionar qualquer exame antes de assinar o pedido.
A lista a seguir não substitui consulta. Cada exame pode estar indicado ou contraindicado dependendo do contexto: idade, sexo, histórico familiar, sintomas. Mas dá um eixo para a conversa que vale a pena ter.
Os 12 exames que mudam a leitura
1. ApoB (apolipoproteína B). Mede o número de partículas aterogênicas circulantes: todas as LDL, IDL, VLDL e Lp(a) carregam uma molécula de ApoB. A revisão de Sniderman, Navar e Thanassoulis publicada em 2022 no JAMA Cardiology sintetizou décadas de literatura mostrando que ApoB é melhor preditor de eventos cardiovasculares do que LDL-C ou colesterol não-HDL, especialmente em discordâncias (que são comuns em síndrome metabólica e diabetes). Alvo geral: <90 mg/dL para risco baixo; <80 para risco moderado-alto; <65 para prevenção secundária.
2. Lp(a), lipoproteína (a). Hereditária, mede uma vez na vida (depois dos 18). Cerca de 20% da população tem Lp(a) acima do limite de risco. A revisão de Tsimikas no JACC em 2017 estabelece a Lp(a) como fator de risco causal e independente para doença coronariana e estenose aórtica calcificada. Alvo: <50 mg/dL (ou <125 nmol/L). Acima disso, a conduta cardiovascular muda, mesmo com LDL "normal".
3. Insulina de jejum + HOMA-IR. Detecta resistência insulínica anos antes da glicemia subir. Insulina <8 µIU/mL é desejável; >12 sugere resistência; >20 já é grave. HOMA-IR <2,0 é meta clínica.
4. HbA1c. Glicação média dos últimos 90 dias. Critério ADA 2026: <5,7% normal, 5,7–6,4% pré-diabetes, ≥6,5% diabetes. Mais útil que glicemia de jejum isolada, que captura apenas um instante.
5. PCR ultrassensível (hs-CRP). Inflamação de baixo grau, fator de risco cardiovascular independente. Alvo <1,0 mg/L. Entre 1,0 e 3,0, risco intermediário; >3,0, risco alto. Eu sempre leio ao lado de quadros agudos descartados (infecção, lesão recente).
6. Ferritina + saturação de transferrina. Em conjunto, não isolados. Ferritina sozinha pode mascarar deficiência funcional ou estar falsamente elevada por inflamação. Para mulheres menstruantes adultas, ferritina abaixo de 50 com sintomas geralmente já requer abordagem.
7. TSH + T4 livre + T3 livre. TSH isolado deixa passar disfunções centrais e conversão alterada. Essa tríade dá leitura completa do eixo.
8. Vitamina D (25-OH). Deficiência amplamente prevalente no Brasil mesmo em região ensolarada. Alvo individualizado: 40–60 ng/mL para a maioria dos adultos.
9. Vitamina B12 + homocisteína. B12 isolada pode estar "normal" (>200 pg/mL) com deficiência funcional já estabelecida. Homocisteína >10 µmol/L sugere deficiência ativa de B12, B6 ou folato. Importante em vegetarianos, idosos, usuários crônicos de metformina ou inibidores de bomba de prótons.
10. Testosterona total + livre + SHBG (homens). A total isolada pode enganar: quem tem SHBG alto tem testosterona total normal mas testosterona livre baixa, com sintomas reais (fadiga, libido, perda de massa muscular). Eu peço junto com LH e FSH se há quadro de hipogonadismo.
11. Estradiol + FSH + progesterona (mulheres na perimenopausa). O FSH é o marcador mais sensível da reserva ovariana em queda. Estradiol isolado oscila demais para ser útil sozinho. Em quem ainda menstrua, eu colho na fase folicular (3º a 5º dia).
12. Escore de cálcio coronariano (CAC). Não é exame de sangue, mas pertence a essa lista. Tomografia sem contraste, dose de radiação baixa. Mede placa aterosclerótica calcificada nas coronárias. Em homens >40 e mulheres >50 com risco intermediário, ou antes se houver história familiar precoce, é o exame que mais reorganiza a conversa preventiva no meu consultório. Faz uma vez; repete em 5 anos se zero, conforme conduta.
Como pano de fundo desses doze, sempre o hemograma completo, a função renal (creatinina, ureia, TGO/TGP), o exame de urina e a pressão arterial bem aferida — esses são tão básicos que nem entram na contagem, mas seguem indispensáveis.

A pergunta que eu faço antes de cada exame
A pergunta que eu faço antes de pedir qualquer exame, e que ensino a todo residente desde os tempos em que coordenei a residência, é simples: se o resultado vier alterado, o que muda na conduta? Se a resposta é "nada" ou "vou pedir outro exame para ver melhor", esse não é o exame certo no momento certo.
E a pergunta gêmea: se o resultado vier normal, o que muda? Se é "nada, eu ainda investigaria do mesmo jeito", também não é o exame certo.
Bons exames respondem perguntas clínicas concretas e movem decisão.
Como eu trato isso no consultório
No meu consultório, o painel inicial não é catálogo. Eu monto para o paciente: idade, sexo, histórico familiar, queixa principal, fatores de risco. Os exames anuais e semestrais entram numa leitura que evolui com o tempo. A decisão de pedir ApoB, Lp(a), CAC ou um painel hormonal completo nasce da leitura clínica.
Um conjunto bem escolhido de exames, somado ao check-up básico que já existe na sua rotina, costuma valer cada centavo. E faz uma diferença enorme no que se enxerga, e no que se pode mudar.
- Sniderman AD, Navar AM, Thanassoulis G. Apolipoprotein B vs Low-Density Lipoprotein Cholesterol and Non-High-Density Lipoprotein Cholesterol as the Primary Measure of Apolipoprotein B Lipoprotein-Related Risk: The Debate Is Over. JAMA Cardiol, 2022;7(3):257-258.
- Tsimikas S. A Test in Context: Lipoprotein(a): Diagnosis, Prognosis, Controversies, and Emerging Therapies. J Am Coll Cardiol, 2017;69(6):692-711.
- Grundy SM et al. 2018 AHA/ACC/Multisociety Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation, 2019;139(25):e1082-e1143.
- American Diabetes Association. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care, 2026;49(Suppl 1):S27-S49.
Clinical review. Medical content authored by Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21,876 · RQE 16,038 (Nephrology).
This content is educational and does not constitute medical prescription. Each case is unique — for individual evaluation and care, consult a physician.
Pre-diabetes is not a phase. It is a five-year window.
An HbA1c between 5.7% and 6.4% is usually treated as a vague warning — "let's repeat it in a year." The literature is more uncomfortable: every year without action increases the probability of progression and narrows the window in which reversal is still the most likely outcome.
Lp(a): the test your father's cardiologist didn't order
One in five people has elevated lipoprotein(a). It is genetically determined, doubles or triples the risk of heart attack and aortic stenosis — and almost never appears on a checkup. Measuring it once in a lifetime changes decades of clinical decisions.
Ferritin between 30 and 100: the normality that drains women
The 'normal' stamp on a ferritin result is one of the most expensive errors in contemporary medicine. I have seen too many women pushed toward the psychiatrist with disabling fatigue — when the problem was the wrong ruler at the lab.