Dr. Getúlio Amaral Filho

Publicado originalmente no Blog Plenya. Ler na fonte ↗

Atividade · Alimentaçãoabril de 2026 · 6 min

Suplementos que fazem diferença depois dos 40 — e os que não

A indústria de suplementos no Brasil cresce dois dígitos por ano, mas a fração com evidência robusta cabe em uma mão. Quatro substâncias passam pelo crivo dos ensaios randomizados; o resto é principalmente marketing — e gasto.

Suplementos que fazem diferença depois dos 40 — e os que não

Roberto tem 52 anos, engenheiro, mede tudo. Chegou ao consultório com uma sacola — literalmente, uma sacola de farmácia — contendo dezessete frascos. Resveratrol, NMN, glutationa em comprimido, multivitamínico genérico, complexo B, vitamina C lipossomal, colágeno tipo II, curcumina sem piperina, espirulina, maca peruana, dois "fórmula longevidade" rotulados em inglês. Doutor, gasto uns oitocentos por mês. Mas não sei se algum disso está fazendo alguma coisa.

Pedi a lista de exames recentes. Vitamina D em 22 ng/mL — abaixo da faixa de suficiência. Magnésio sérico 1,7 mg/dL — no piso da faixa "normal", o que diz pouco porque magnésio sérico subestima deficiência tecidual. Ômega-3 índice (que ele tinha pedido por conta própria) em 4,2% — abaixo de 8%, faixa de risco cardiovascular. Creatina, ele nunca tomou — achei que era só pra academia.

Roberto é o caso comum. Não é falta de cuidado. É excesso desorganizado.

A pirâmide do que tem evidência

A literatura de suplementação para adultos saudáveis acima dos 40 é vastíssima — e a maior parte dela é fraca: estudos pequenos, desfechos substitutos, populações homogêneas, conflitos de interesse. Quando se filtra por ensaios randomizados de tamanho razoável, com desfechos clinicamente relevantes, a lista do que sobra é curta. Creatina monoidratada. Ômega-3 (EPA+DHA, ou EPA isolado em dose alta para indicações específicas). Vitamina D em deficientes. Magnésio em deficientes ou em condições específicas. Esse é o núcleo duro.

Comparativo: à esquerda, os 4 suplementos com evidência forte para adultos >40 (creatina 3-5g/dia, ômega-3 EPA+DHA 1-2g se índice <8%, vitamina D3 em deficientes, magnésio glicinato 200-400mg). À direita, 8 suplementos com evidência fraca ou ausente (NMN, resveratrol, glutationa oral, multivitamínico genérico, colágeno em pó, curcumina sem piperina, antioxidantes em mega-dose, painéis de marketing). Suplementação dirigida por exame custa menos e produz mais.
Comparativo: à esquerda, os 4 suplementos com evidência forte para adultos >40 (creatina 3-5g/dia, ômega-3 EPA+DHA 1-2g se índice <8%, vitamina D3 em deficientes, magnésio glicinato 200-400mg). À direita, 8 suplementos com evidência fraca ou ausente (NMN, resveratrol, glutationa oral, multivitamínico genérico, colágeno em pó, curcumina sem piperina, antioxidantes em mega-dose, painéis de marketing). Suplementação dirigida por exame custa menos e produz mais.

Tudo o mais — NMN, NR, resveratrol, glutationa oral, curcumina sem veículo, multivitamínico genérico, colágeno em pó, antioxidantes em mega-dose — ou tem evidência fraca, ou tem evidência neutra, ou tem evidência contra. Não é maldade dizer isso. É leitura de literatura.

Creatina — a mais subestimada

A creatina monoidratada é provavelmente o suplemento com a melhor relação evidência/preço já estudada. Foi estigmatizada por décadas como "coisa de academia" e está sendo redescoberta na clínica de longevidade pelo motivo certo.

A meta-análise de Chilibeck e colegas, publicada em 2017 no Open Access Journal of Sports Medicine, agregou 22 ensaios randomizados em adultos com idade média de 57 a 70 anos. O grupo creatina + treino de força ganhou em média 1,37 kg de massa magra a mais que o grupo placebo + treino, com aumento significativo de força em supino e leg press. O efeito acontece com 3 a 5 g/dia, sem fase de carga, sem ciclos. Não há sinal de prejuízo renal em pessoas com função renal normal — uma preocupação repetida que a literatura específica não sustenta.

Mais recente: dados sugerem benefício adicional em cognição e humor em adultos mais velhos, especialmente em períodos de privação de sono ou estresse. O músculo é o maior estoque de creatina do corpo, mas o cérebro também usa — e a passagem pela barreira hematoencefálica explica o efeito neurocognitivo.

Indicação prática: 3-5 g/dia de creatina monoidratada (não as formas exóticas — micronizada ou padrão monoidratada). Tomada constante, todos os dias, com ou sem treino. Custo mensal: R$ 30 a 60.

Ômega-3 — a história está mais nuançada

A história do ômega-3 é menos clara do que parece nas redes sociais. O ensaio VITAL, publicado por JoAnn Manson e colegas em 2019 no NEJM, randomizou mais de 25 mil adultos para 1 g/dia de óleo de peixe ou placebo, com seguimento de cinco anos. Não houve redução estatisticamente significativa do desfecho composto cardiovascular primário. Para a população geral, sem indicação específica, 1 g/dia de óleo de peixe genérico não previne infarto.

Mas o quadro muda com indicação. O REDUCE-IT, conduzido por Deepak Bhatt e publicado também em 2019 no NEJM, randomizou 8.179 pacientes com triglicérides elevados (150-499 mg/dL) já em uso de estatina para receber etil-icosapentato (EPA puro, dose alta — 4 g/dia) ou placebo. Redução de 25% em eventos cardiovasculares maiores. A dose, a pureza e a indicação importam.

A meta-análise de Yang Hu, Frank Hu e Manson, publicada no Journal of the American Heart Association em 2019, agregando 13 ensaios e 127 mil participantes, confirmou redução modesta mas significativa de mortalidade cardiovascular com suplementação marinha de ômega-3, com efeito mais consistente em formulações de EPA do que em fórmulas mistas EPA+DHA de baixa dose.

Indicação prática: o exame de Índice de Ômega-3 (eritrocitário) custa R$ 200-300 e diz onde você está. Alvo: acima de 8%. Para a maioria das pessoas que comem peixe gordo (sardinha, salmão, atum) duas a três vezes por semana, o índice já fica em faixa adequada. Para os demais, suplementar EPA+DHA combinados em torno de 2 g/dia, com formulação certificada (selo IFOS ou equivalente). Em pacientes com triglicérides elevados e doença cardiovascular, a discussão é com cardiologista — dose maior, EPA puro, decisão individual.

Vitamina D — só faz sentido medir

A vitamina D virou caso emblemático de overpromise. O VITAL também testou 2.000 UI/dia de vitamina D3 contra placebo. Sem redução de câncer total ou eventos cardiovasculares na população geral. Sinal modesto e tardio para mortalidade por câncer, mas o desfecho primário não bateu.

A leitura honesta dos dados: vitamina D suplementada cegamente, sem dosagem prévia, em adulto sem deficiência, não previne nada. Já em pessoas com 25-OH-vitamina D abaixo de 30 ng/mL — situação comum no Brasil em quem trabalha indoor — repor faz sentido para saúde óssea, possivelmente para função muscular e imune. Faixa-alvo razoável: 40 a 60 ng/mL. Doses típicas para alcançar essa faixa variam muito — 1.000 a 4.000 UI/dia em maioria — e a definição é com sangue, não com chute. Co-administrar com vitamina K2 (forma MK-7) é comum em prática clínica para minimizar deposição vascular de cálcio, embora a evidência aqui ainda seja menos sólida.

Magnésio — o silencioso

O magnésio é o caso oposto: deficiência subclínica é provavelmente a mais comum em países desenvolvidos. A revisão de DiNicolantonio e colegas no Open Heart (BMJ) em 2018 sintetizou bem o problema: o consumo médio em populações ocidentais está abaixo da RDA (310-420 mg/dia), o magnésio sérico só cai depois que os estoques teciduais já estão depletados, e a deficiência associa-se a hipertensão, resistência insulínica, arritmias, enxaquecas, qualidade de sono pobre.

Indicação prática: dose típica de reposição 200-400 mg/dia de magnésio elementar, em formas absorvíveis — glicinato (melhor para sono e ansiedade), citrato (efeito laxativo se exagerar), treonato (atravessa barreira hematoencefálica, dados emergentes em cognição). Evitar óxido de magnésio — biodisponibilidade ruim.

O que não passa pelo crivo

  • NMN, NR, resveratrol: evidência em humanos ainda é fraca. Estudos mostram aumento de NAD+ sérico, mas desfechos clínicos consistentes não vieram. Caro. Aguardar.
  • Glutationa oral: mal-absorvida no trato digestivo. N-acetilcisteína (NAC) tem evidência melhor como precursor.
  • Multivitamínico genérico: estudos grandes não mostraram benefício em adultos bem-nutridos. Pode ser útil em idosos com ingesta restrita.
  • Colágeno em pó: dados modestos para articulação e pele, mas inferiores a simplesmente atingir a meta proteica diária.
  • Curcumina sem piperina ou veículo lipídico: biodisponibilidade próxima de zero.
  • Antioxidantes em mega-dose (vitamina C 5 g, vitamina E 1.000 UI): podem atenuar o ganho de força do treino, paradoxalmente.

Protocolo de doses dos 4 suplementos com evidência forte: creatina monoidratada 3-5 g/dia (R$ 30-60/mês, controle: função renal anual); ômega-3 EPA+DHA 1-2 g/dia se índice <8% — ou 4 g EPA puro em REDUCE-IT (R$ 80-150, alvo índice >8%); vitamina D3 2.000-5.000 UI ajustar por dosagem (R$ 20, alvo 25-OH 40-60 ng/mL); magnésio glicinato 200-400 mg/noite (R$ 50). Custo total típico: R$ 180-280/mês — versus R$ 800-1.500 do paciente médio com sacola de farmácia.
Protocolo de doses dos 4 suplementos com evidência forte: creatina monoidratada 3-5 g/dia (R$ 30-60/mês, controle: função renal anual); ômega-3 EPA+DHA 1-2 g/dia se índice <8% — ou 4 g EPA puro em REDUCE-IT (R$ 80-150, alvo índice >8%); vitamina D3 2.000-5.000 UI ajustar por dosagem (R$ 20, alvo 25-OH 40-60 ng/mL); magnésio glicinato 200-400 mg/noite (R$ 50). Custo total típico: R$ 180-280/mês — versus R$ 800-1.500 do paciente médio com sacola de farmácia.

A leitura que o Continuum faz

O Continuum Plenya não vende suplemento, não tem balcão de loja, não tem afiliação. A lista de suplementação é desenhada com base em exames específicos — ômega-3 índice, 25-OH-vitamina D, magnésio (sérico e às vezes intracelular), ferritina, B12, homocisteína. A recomendação é nominal: a substância, a dose, a marca confiável, o intervalo de reavaliação. Roberto, do começo, hoje toma quatro coisas. Gasta R$ 180 por mês. Pela primeira vez, sei o porquê de cada uma.

Suplemento não é vitamina da vida saudável. É medicamento sem bula — e medicamento sem indicação é problema esperando para acontecer.

Referências

  1. Chilibeck PD et al. "Effect of creatine supplementation during resistance training on lean tissue mass and muscular strength in older adults: a meta-analysis." Open Access J Sports Med, 2017;8:213-226.
  2. Bhatt DL et al. "Cardiovascular Risk Reduction with Icosapent Ethyl for Hypertriglyceridemia." N Engl J Med, 2019;380(1):11-22.
  3. Hu Y, Hu FB, Manson JE. "Marine Omega-3 Supplementation and Cardiovascular Disease: An Updated Meta-Analysis of 13 Randomized Controlled Trials Involving 127 477 Participants." J Am Heart Assoc, 2019;8(19):e013543.
  4. Manson JE et al. "Vitamin D Supplements and Prevention of Cancer and Cardiovascular Disease." N Engl J Med, 2019;380(1):33-44.
  5. DiNicolantonio JJ, O'Keefe JH, Wilson W. "Subclinical magnesium deficiency: a principal driver of cardiovascular disease and a public health crisis." Open Heart, 2018;5(1):e000668.

Revisão clínica. Conteúdo médico de autoria do Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21.876 · RQE 16.038 (Nefrologia). Publicado originalmente em plenyasaude.com.br/blog.