Apneia em quem não ronca: a forma feminina invisível
Mulher de 42 anos, magra, sem ronco, tratada por anos de "ansiedade". A polissonografia volta "sem apneia significativa". Mas o quadro continua, e é uma cena que reconheço pela fala, antes mesmo de pedir o primeiro exame.

A Patrícia tem 42 anos. Magra (IMC 22,8). Não ronca, o marido confirma. Procurou-me por ansiedade, encaminhada por uma colega. Toma sertralina há quatro anos, prescrita por psiquiatra competente. Algumas tardes faz alprazolam de resgate. Ainda assim, descreveu a vida assim: doutor, eu acordo cansada. Tenho a cabeça embaralhada o dia inteiro. À noite, demoro pra pegar no sono porque o coração dispara. Quando durmo, é leve. Tenho dor no pescoço, dor mandibular, gastura.
A esposa do Cláudio, do consultório do andar de cima, descreveu a mesma coisa cinco anos antes do diagnóstico que mudou a vida dela. Aprendi a reconhecer essa fala (magra, ansiosa, exausta, sem ronco) antes mesmo de pedir o primeiro exame. É um padrão clínico, não uma coincidência.
Antes de chegar a mim, a Patrícia já tinha feito polissonografia. O laudo dizia: "índice de apneia-hipopneia 3,2 eventos/hora, saturação mínima 92%, sem evidência de apneia obstrutiva significativa". A médica que pediu deu alta do tema. Não é apneia, ela ouviu. Cuide da ansiedade.
O laudo estava tecnicamente correto. A leitura, não.
A apneia que reconhecemos, e a que perdemos
A apneia obstrutiva do sono "clássica" foi descrita em homens de meia-idade, com sobrepeso, pescoço grosso, ronco alto, pausas presenciadas pela esposa, sonolência diurna marcada. O IAH (índice de apneia-hipopneia) é a métrica padrão: pausas e reduções acentuadas de fluxo aéreo, com dessaturação ou despertar. Quando o IAH está alto, ninguém erra o diagnóstico.
O problema é o que está abaixo do limiar. O EPISONO (Tufik e colegas, Sleep Medicine, 2010), feito em São Paulo com amostra populacional, encontrou apneia obstrutiva em 32,8% dos adultos da cidade. Em mulheres, a prevalência sobe com a idade e dispara após a menopausa. A coorte suíça HypnoLaus, em 2015, mostrou o mesmo padrão em outra geografia: 23,4% das mulheres adultas com IAH ≥15.
Mas mulheres chegam menos ao laboratório de sono. Young e colegas mostraram, num clássico de 1996 no Arch Intern Med, que mulheres eram encaminhadas para investigação 8 a 10 vezes menos do que homens com gravidade equivalente. O rastreio ambulatorial valorizava ronco e sonolência diurna, sintomas masculinos. A apresentação feminina (insônia, fadiga, cefaleia matinal, ansiedade, humor rebaixado) passava em branco. A revisão de Bonsignore, Saaresranta e Riha (European Respiratory Review, 2019) consolidou décadas dessa observação: a apresentação clássica masculina virou a definição operacional; as mulheres ficaram fora.
E há um capítulo paralelo, descrito ainda nos anos 90 por Christian Guilleminault em Stanford (Chest, 1996), e aprofundado por Gold e colegas em 2003 no mesmo periódico: pacientes com resistência aumentada das vias aéreas superiores sem critério formal de apneia ainda podiam ter sono fragmentado, pressão arterial noturna elevada e um conjunto de sintomas que se sobrepõe a fadiga crônica, dor crônica e ansiedade. A literatura chamou esse fenômeno de UARS. No dia a dia clínico, importa menos o nome e mais o conceito: fragmentação respiratória do sono pode existir abaixo do limiar do IAH, sobretudo em mulheres magras.
Por que o IAH "leve" engana em mulher
Apneia leve no homem é, com frequência, leve mesmo. Em mulher com fenótipo sintomático compatível (fadiga refratária, sono não restaurador, dor crônica de cabeça e mandíbula, bruxismo, despertares com taquicardia, noctúria sem causa urológica), um IAH baixo pode estar mascarando algo mais. No meu consultório, três motivos aparecem com frequência:
- As pausas femininas são mais curtas e menos profundas. Em vez de apneia franca com dessaturação, predomina limitação de fluxo: a paciente continua respirando, mas com trabalho aumentado, gerando microdespertares que fragmentam o sono. Vários desses eventos não atingem o critério formal de hipopneia e ficam fora do IAH.
- A saturação se mantém. Mulheres em geral dessaturam menos por evento. Quem lê só "SpO₂ mínima" sai tranquilo. A fragmentação do sono, no entanto, é real, e é ela que produz o sintoma.
- Os eventos concentram em REM. Em mulher, o distúrbio respiratório do sono frequentemente é REM-dependente. Se o IAH é calculado sobre o total da noite, dilui o que aconteceu nos últimos 90 minutos do sono. Quando o laudo separa IAH em REM e em não-REM (e bom laudo separa), eu vou direto nessa linha.
Não é exame caro nem técnica de pesquisa. É leitura do exame que a paciente já fez. A polissonografia tipo I padrão, disponível em qualquer laboratório de sono no Brasil, já traz cânula de pressão nasal, EEG, oximetria, posição corporal e estágios de sono. Quando uma paciente me traz um laudo "normal" e o quadro grita, eu peço o gráfico de fluxo (não só os números resumidos), o índice de despertares e a fragmentação por hora de sono. Em alguns casos, repetir o exame depois de afinar a suspeita clínica também é razoável. Não é raro, com o laudo na mão e a história na cabeça, a história ficar evidente.
O que eu trato, e como
A boa notícia: o quadro responde, frequentemente bem, a abordagens disponíveis no consultório brasileiro de qualquer cidade média. A abordagem que faço combina várias frentes em paralelo.
Avaliação otorrinolaringológica dirigida. Rinite alérgica, desvio septal, hipertrofia de cornetos, palato alto, tonsilas aumentadas, tudo que aumenta resistência das vias aéreas superiores piora o quadro. Em mulher magra com queixa de sono não restaurador, eu encaminho a otorrino antes mesmo da polissonografia em alguns casos.
Avaliação com dentista especializado em odontologia do sono. A Associação Brasileira de Odontologia do Sono (ABROS) credencia profissionais com formação específica. O dispositivo de avanço mandibular (DAM), individualizado, é primeira linha em apneia leve a moderada no fenótipo magro, com adesão tipicamente superior à do CPAP. Custo razoável, disponível em capitais e cidades médias. Eu trabalho com dentistas dessa rede.
Fonoaudiologia em sono. O ensaio randomizado de Guimarães e colegas, conduzido no InCor/USP e publicado em 2009 no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, mostrou redução significativa do IAH em apneia moderada com terapia miofuncional orofacial: exercícios que fortalecem língua, palato e musculatura faríngea. Brasileiro, replicado depois em outros centros. Acessível, e em pacientes selecionadas faz diferença visível na queixa subjetiva já em 8 a 12 semanas.

Tratamento da rinite e da obstrução nasal. Não é detalhe. Pode ser corticoide nasal tópico, anti-histamínico, tratamento de causa alérgica. Reduz resistência, melhora o sono.
Higiene de sono séria. Álcool fora ou drasticamente reduzido (relaxa a via aérea, piora). Decúbito lateral. Quarto fresco. Última refeição leve e pelo menos três horas antes de deitar. Eu insisto nessas medidas tanto quanto no aparelho, e via de regra elas mudam a história sozinhas em pacientes leves.
CPAP em casos selecionados. Em apneia leve com fenótipo feminino, o CPAP costuma não ser a minha primeira escolha: adesão baixa, sintoma residual frequente. Reservo para quando há comorbidade que justifica (hipertensão refratária, fibrilação atrial, comprometimento cognitivo, falha das outras medidas). Quando indico, pressões baixas costumam bastar.
Tratamento de bruxismo associado. Placa miorrelaxante feita por dentista, para proteger dentição e reduzir dor mandibular. Não é tratamento da apneia, é manejo do dano colateral.
Como eu leio isso no consultório
Esse é exemplo claro do diagnóstico que se perde em consulta de 30 minutos com lista de queixas curta. Eu faço, em todas essas pacientes, anamnese demorada: rangimento dental, dor matinal, posição de sono, despertares noturnos para urinar (noctúria sem causa urológica é dado), respiração bucal, ressecamento ao acordar, uso de protetor. Quando o quadro pede, peço STOP-BANG e Berlin Questionnaire, mas com a ressalva crítica de que foram validados sobretudo em homens e não devem ser a filtragem final. Acrescento Epworth e Pittsburgh, e a polissonografia tipo I.
A Patrícia do começo da história ajustou um DAM há 14 meses. Em paralelo, tratou a rinite com a otorrinolaringologista, começou terapia miofuncional com fonoaudióloga em sono, cortou o vinho de fim de tarde, passou a dormir de lado. Reduziu sertralina em conversa com o psiquiatra (não cortou, reduziu, com critério). Em seis meses, parou o alprazolam por completo. Em dez meses, descreveu na consulta a frase que escuto quando o diagnóstico estava certo: eu não sabia que se podia acordar descansada.
A "ansiedade" nunca foi só ansiedade. Foi uma via aérea que trabalhava demais à noite, um cérebro fragmentado pelos microdespertares, e quatro anos de tratamento na avenida errada. Eu fico pensando, nesses casos, em quantas mulheres ainda estão tomando sertralina por uma respiração que ninguém escutou.
Mulher cansada aos 42 nem sempre é hormônio. Às vezes é uma respiração que ninguém escutou direito.
- Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LRA. Obstructive sleep apnea syndrome in the São Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med, 2010;11(5):441-446.
- Heinzer R et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in the general population: the HypnoLaus study. Lancet Respir Med, 2015;3(4):310-318.
- Young T, Hutton R, Finn L, Badr S, Palta M. The gender bias in sleep apnea diagnosis: are women missed because they have different symptoms? Arch Intern Med, 1996;156(21):2445-2451.
- Guilleminault C, Stoohs R, Kim YD, Chervin R, Black J, Clerk A. Upper airway resistance syndrome, nocturnal blood pressure monitoring, and borderline hypertension. Chest, 1996;109(4):901-908.
- Gold AR, Dipalo F, Gold MS, O'Hearn D. The symptoms and signs of upper airway resistance syndrome: a link to the functional somatic syndromes. Chest, 2003;123(1):87-95.
- Bonsignore MR, Saaresranta T, Riha RL. Sex differences in obstructive sleep apnoea. Eur Respir Rev, 2019;28(154):190030.
- Guimarães KC, Drager LF, Genta PR, Marcondes BF, Lorenzi-Filho G. Effects of oropharyngeal exercises on patients with moderate obstructive sleep apnea syndrome. Am J Respir Crit Care Med, 2009;179(10):962-966.
Revisão clínica. Conteúdo médico de autoria do Dr. Getúlio Amaral Filho · CRM-PR 21.876 · RQE 16.038 (Nefrologia).
Este conteúdo tem fim educativo e não constitui prescrição médica. Cada caso é único — para avaliação e conduta personalizadas, consulte um médico.
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